Frio e coração: por que os casos de infarto aumentam no inverno e o que fazer para se proteger
Frio e coração: por que o infarto aumenta no inverno

⚠️ Antes de tudo: este texto é informativo e não substitui a orientação do seu médico. Nunca mude, reduza ou suspenda um remédio por conta própria — nem se a sua pressão parecer boa. E se você suspeitar de infarto ou AVC em alguém, ligue 192 imediatamente, sem esperar melhorar.
Todo ano acontece a mesma coisa, e quase ninguém liga uma coisa à outra: chega o frio e os pronto-socorros enchem.
Pesquisa do Hospital das Clínicas de São Paulo mostra que a incidência de infarto aumenta em até 30% durante o inverno. Os casos de AVC também sobem, especialmente quando a temperatura cai abaixo dos 14 °C.
Não é coincidência nem azar. É um mecanismo do corpo que dá para entender em dois minutos — e, uma vez entendido, dá para se proteger.
O que o frio faz com o seu corpo
Quando você sente frio, o organismo tem uma prioridade acima de todas as outras: não perder calor.
Para isso, ele libera substâncias chamadas catecolaminas, que fazem os vasos sanguíneos se contraírem. Menos sangue circulando perto da pele significa menos calor escapando pelo corpo. É uma defesa inteligente, e ela funciona.
Só que ela tem um preço.
Vaso mais estreito é vaso com mais resistência. E mais resistência significa duas coisas ao mesmo tempo:
- A pressão arterial sobe
- O coração precisa trabalhar mais para empurrar o sangue pelo corpo
Para um coração jovem e saudável, isso é apenas esforço extra. Para um coração que já convive com pressão alta, colesterol elevado, diabetes ou alguma doença cardíaca, esse esforço extra pode ser o empurrão que faltava.
E há um segundo fator que quase ninguém comenta: no frio, a gente muda de hábito. Come mais e pior, sai menos de casa, anda menos, bebe menos água. Colesterol e glicemia sobem justamente no mês em que o coração está sendo mais exigido.
Por que depois dos 60 o risco é maior
Não é alarmismo, é fisiologia — e saber disso ajuda a agir com antecedência em vez de reagir depois.
Com a idade, o corpo tem menos margem de manobra. A resposta ao frio tende a ser mais intensa: a pressão sobe mais do que subiria em uma pessoa jovem, e o sangue fica um pouco mais propenso a coagular. Some-se a isso o risco maior de infecção respiratória, que sobrecarrega o coração ainda mais.
Quem está no grupo que precisa de mais atenção nesta época:
- Pessoas com pressão alta
- Pessoas com diabetes
- Pessoas com colesterol elevado
- Fumantes
- Quem já teve infarto, AVC ou tem alguma doença cardíaca
- Quem tem insuficiência cardíaca
Se você se encaixa em algum desses, este é o mês de conversar com o seu médico — não em dezembro.
Como medir a pressão em casa do jeito certo
Esta é a parte mais útil do texto, e vale ler com calma.
Muita gente mede a pressão em casa e chega a conclusões erradas — para mais ou para menos — simplesmente porque mede errado. Um número falso alto gera susto e noite mal dormida. Um número falso baixo gera uma falsa tranquilidade, que é pior.
O jeito certo é assim:
Antes de medir
- Use aparelho automático de braço, validado. Aparelho de pulso é bem menos confiável e não é o recomendado para acompanhamento.
- Confira o tamanho do manguito. Braço mais grosso precisa de manguito maior. Manguito apertado demais faz o aparelho mostrar um número mais alto do que o real — é o erro mais comum de todos.
- Vá ao banheiro antes. Bexiga cheia altera a medida.
- Nada de café, cigarro, álcool ou exercício nos 30 minutos anteriores.
- Fique 3 a 5 minutos sentado, em silêncio, antes de começar. Se você acabou de subir a escada e mediu, o número não vale.
Na hora de medir
- Sentado, costas apoiadas na cadeira
- Pés no chão, pernas descruzadas
- Braço apoiado sobre a mesa, na altura do coração — braço pendurado ou apoiado baixo altera o resultado
- Manguito no braço sem roupa, cerca de dois dedos acima da dobra do cotovelo
- Não fale e não se mexa durante a medida
- Faça três medidas, com um minuto de intervalo entre elas
- Descarte a primeira e considere a média das outras duas
Se o seu médico pediu acompanhamento
O protocolo que os cardiologistas usam é este: três medidas de manhã, antes do café e antes do remédio, e três no fim da tarde ou à noite, antes do jantar, durante cinco dias.
Anote tudo com data e horário e leve na consulta. Esse registro vale mais para o seu médico do que a medida isolada do consultório — porque mostra o seu dia a dia, e não um momento de nervosismo.
E o aviso mais importante desta seção: se a sua pressão subir no inverno, isso não é motivo para você mexer na dose do remédio. É motivo para ligar para o seu médico. Alguns ajustes sazonais são comuns e são o médico que faz, com o histórico na mão.

Oito cuidados que fazem diferença neste mês
1. Não pare o remédio. Nunca. Parece óbvio, mas é a principal causa de descompensação. Remédio de pressão não é para tomar quando a pressão está alta — é para manter a pressão baixa. Se você esquece com frequência, uma caixinha organizadora por dias da semana resolve o problema melhor do que a força de vontade.
2. Aqueça-se por camadas, e comece pelas extremidades. Pés, mãos, cabeça e pescoço são por onde mais se perde calor. Várias camadas leves aquecem melhor do que uma peça grossa — e permitem tirar uma quando você esquenta, evitando o suor que depois esfria.
3. Cuidado com o choque de temperatura. Sair do banho quente direto para o ambiente frio, ou da cama coberta para o chão gelado, é justamente o momento de maior variação. Deixe o roupão e o chinelo ao alcance da mão. Aqueça o banheiro antes, se possível.
4. Mude o horário da caminhada. As primeiras horas da manhã juntam duas coisas ruins: o pico natural da pressão ao acordar e a temperatura mais baixa do dia. No inverno, prefira o meio da manhã ou o fim da tarde. E não abandone a atividade — sedentarismo no inverno é parte do problema.
5. Beba água mesmo sem sede. No frio a sede diminui, mas a perda de líquido continua. Desidratação deixa o sangue mais concentrado, o que não ajuda em nada. Uma garrafa térmica com chá ou água morna à mão costuma funcionar melhor do que a promessa de "beber mais água".
6. Atenção redobrada com o sal. Sopa industrializada, caldo em cubo, embutidos e comida de conforto do inverno costumam ser muito salgados. É a combinação exata que você não quer neste mês.
7. Tome a vacina da gripe. Não é assunto de resfriado — é assunto de coração. A gripe sobrecarrega o organismo e pode desencadear eventos cardíacos em quem já tem risco. A vacinação também é recomendada contra pneumococo para idosos e pessoas com doenças crônicas. Converse com o posto de saúde.
8. Cuidado com o aquecedor. Uma advertência de segurança que raramente aparece: nunca use aquecedor a combustão, lampião, churrasqueira ou o forno do fogão para aquecer um cômodo fechado. O risco de intoxicação por monóxido de carbono é real e as mortes acontecem todo inverno. Aquecedor elétrico em ambiente ventilado, sempre.
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Reconhecer um AVC em 30 segundos: o teste SAMU
O Ministério da Saúde criou uma forma simples de memorizar os sinais, usando a própria sigla do serviço de emergência.
S — Sorria. Peça para a pessoa sorrir. Se o sorriso ficar torto ou só um lado do rosto se mexer, é sinal de alerta.
A — Abrace. Peça para levantar os dois braços. Se um cair ou não subir, é sinal de alerta.
M — Música. Peça para cantar uma música ou repetir uma frase. Se a fala sair enrolada, trocada ou não sair, é sinal de alerta.
U — Urgência. Diante de qualquer um desses sinais, ligue 192 imediatamente.
O tempo aqui é tudo. Existe uma janela de cerca de quatro horas e meia desde o início dos sintomas em que os tratamentos são mais eficazes. Cada minuto de espera é tecido cerebral perdido.
Não leve de carro se puder chamar o SAMU. A ambulância já começa o atendimento no caminho e leva a pessoa ao hospital certo, que nem sempre é o mais próximo.
Infarto nem sempre dói no peito
Este é o ponto que mais precisa ser conhecido — e o menos divulgado.
A cena do filme, com a mão no peito e a dor fulminante, é apenas uma das formas. Em pessoas idosas, em mulheres e em quem tem diabetes, o infarto costuma se apresentar de forma diferente.
Sinais que merecem atenção:
- Falta de ar sem dor forte no peito
- Suor frio e palidez repentina
- Náusea, vômito ou mal-estar parecido com má digestão
- Cansaço extremo, desproporcional ao esforço feito
- Tontura ou sensação de que vai desmaiar
- Desconforto que irradia para braço, mandíbula, pescoço ou costas
- Queimação ou pontadas difusas no peito
Muita gente passa horas achando que comeu algo pesado. Essas horas são exatamente as que mais importam.
A regra, e ela é simples: na dúvida, ligue 192. Ninguém é repreendido por chamar o SAMU e não ser nada. O contrário custa caro.
O resumo
- O frio contrai os vasos, eleva a pressão e faz o coração trabalhar mais
- Os casos de infarto sobem até 30% no inverno
- Nunca mexa na dose do remédio por conta própria — fale com o médico
- Meça a pressão com aparelho de braço, sentado, em repouso, três vezes
- Mantenha a caminhada, mudando o horário para o meio do dia
- SAMU: Sorria, Abrace, Música, Urgência — 192
- Infarto nem sempre dói no peito. Falta de ar e suor frio contam
Agasalhe-se, tome o remédio, beba água, marque a consulta que você vem adiando. É um inverno só. Ele passa — e a ideia é passar por ele inteiro.
Perguntas frequentes
- O frio realmente aumenta a pressão arterial?
- Sim. Em resposta ao frio, o corpo libera catecolaminas, que contraem os vasos sanguíneos para reduzir a perda de calor. Essa contração aumenta a resistência à passagem do sangue e, com isso, eleva a pressão arterial e exige mais trabalho do coração.
- Por que os casos de infarto aumentam no inverno?
- Pesquisa do Hospital das Clínicas de São Paulo aponta aumento de até 30% na incidência de infarto durante o inverno. Contribuem a elevação da pressão pelo frio, a maior tendência à coagulação, o sedentarismo e as mudanças alimentares típicas da estação, além das infecções respiratórias.
- Devo aumentar o remédio de pressão no inverno?
- Não por conta própria, em hipótese alguma. Ajustes sazonais de dose existem, mas quem faz é o médico, com o seu histórico em mãos. Se as medidas em casa estiverem mais altas que o habitual, anote e agende uma consulta.
- Aparelho de pressão de pulso é confiável?
- É menos confiável que o de braço e não é o recomendado para acompanhamento. A medida no braço, com manguito de tamanho adequado e aparelho validado, é o método indicado pelas diretrizes.
- Qual é o jeito certo de medir a pressão em casa?
- Sentado, com as costas apoiadas, pés no chão e o braço apoiado na altura do coração, após 3 a 5 minutos de repouso, sem falar durante a medida. Faça três medidas com um minuto de intervalo, descarte a primeira e considere a média das outras duas.
- Como reconhecer um AVC rapidamente?
- Use o teste SAMU: peça para a pessoa Sorrir (boca torta?), Abraçar ou levantar os dois braços (um cai?) e cantar uma Música ou repetir uma frase (fala enrolada?). Diante de qualquer sinal, é Urgência: ligue 192 imediatamente.
- Infarto sempre causa dor forte no peito?
- Não. Em idosos, mulheres e pessoas com diabetes, o infarto frequentemente se manifesta de forma atípica, com falta de ar, suor frio, náusea, cansaço extremo ou mal-estar parecido com indigestão, sem dor intensa.
- A vacina da gripe tem relação com o coração?
- Sim. A gripe sobrecarrega o organismo e pode desencadear eventos cardíacos em pessoas com risco prévio. Por isso a vacinação é recomendada especialmente para idosos e pessoas com doenças crônicas.
Fontes
Consultadas na data de publicação deste artigo.
- Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo / Hospital das Clínicas — Casos de infarto e AVC aumentam 30% no inverno
- Ministério da Saúde — Teste SAMU para reconhecimento de AVC
- Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina — Dia Mundial do AVC: reconheça os sinais e busque ajuda imediata
- Sociedade Brasileira de Cardiologia — Diretrizes de Monitorização Residencial da Pressão Arterial (MRPA)
- BVS Atenção Primária em Saúde — Como fazer e interpretar a MRPA
- Hospital Israelita Albert Einstein — Como reconhecer sintomas de um ataque cardíaco e o que fazer
- Santa Marcelina Saúde — Inverno acende alerta para o coração
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